O espetáculo “Seara” chega ao Theatro Circo, em Braga, a 19 de dezembro, como o grande momento final de Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura. Para Ilídio Marques, curador do projeto, “Seara” é a materialização de um ano inteiro de trabalho dedicado à valorização da música portuguesa de raiz.
É também o culminar do programa Clube Raiz, que durante doze meses reuniu artistas, investigadores, músicos e público em torno da tradição musical e das suas múltiplas formas de reinvenção. “Este espetáculo acaba por ser uma celebração maior deste programa, no qual reunimos e cruzamos várias figuras de relevo da música portuguesa, com trabalho de mérito na música de raiz e nas suas múltiplas ramificações. O que o torna também especial é que espelhará o passado, a nossa história, mas também reflete quem faz o presente e projeta quem está a moldar o futuro, protegendo a tradição, mas desafiando-a à orgânica natural da sua evolução”, sublinha Ilídio Marques.

A ideia não era fazer um encerramento formal, mas sim um “espetáculo que perdurasse na memória do público e do projeto”, capaz de afirmar a relevância da música tradicional numa época em que a cultura enfrenta desafios constantes.
A escolha dos artistas traduz essa ambição. Juntar Amélia Muge, Rão Kyao, Júlio Pereira, Daniel Pereira Cristo e Manuel de Oliveira no mesmo palco é um acontecimento raro.
São nomes de gerações e percursos diferentes, mas cada um deles portuguesa: uns pela pesquisa profunda na tradição, outros pela capacidade de renovação estética e outros ainda pela aproximação entre universos musicais aparentemente distantes.

Para Ilídio Marques, esta “constelação” nasceu de forma natural, apesar da sua dimensão. “Além de um concerto memorável — que gostaríamos que entrasse diretamente para a história recente da música tradicional portuguesa —, esperamos que outros músicos olhem para esta junção e tenham vontade de partilhar o palco com outros músicos, criando momento coletivos singulares, com grandeza significativa.” O curador lembra que houve um tempo — sobretudo no período pós-25 de Abril — em que era habitual ver grandes nomes da música portuguesa juntos em palco, num espírito de cooperação artística que hoje quase desapareceu. “Vivemos tempos difíceis e a força natural destas junções renova a atenção sobre o papel da música e da arte na transformação da sociedade”, sublinha.
ESTE ESPETÁCULO ACABA POR SER UMA CELEBRAÇÃO MAIOR DESTE PROGRAMA, NO QUAL REUNIMOS E CRUZAMOS VÁRIAS FIGURAS DE RELEVO DA MÚSICA PORTUGUESA, COM TRABALHO DE MÉRITO NA MÚSICA DE RAIZ E NAS SUAS MÚLTIPLAS RAMIFICAÇÕES.
O propósito de “Seara” é recuperar esse espírito, renovar o sentido de comunidade artística e, quem sabe, inspirar outros músicos a colaborarem mais.

Tradição e inovação
A fusão entre tradição e inovação surge naturalmente deste cruzamento de gerações. Não se trata de apresentar sons futuristas, nem de misturar estilos apenas para surpreender. O que o espetáculo propõe é uma convivência genuína entre saberes e sensibilidades. “Ao cruzarmos diferentes gerações da música tradicional portuguesa, da música raiz, estamos naturalmente a criar essa fusão entre tradição e inovação.”
Essa fusão estará presente em “Seara”, não de forma explosiva ou disruptiva, mas “subtil” — como quem respeita a tradição e, ao mesmo tempo, a deixa respirar. O espetáculo apresenta também arranjos inéditos construídos em colaboração entre todos os músicos. Em teoria, juntar artistas com percursos tão variados poderia gerar tensões criativas. Na prática, o processo foi fluido. “São músicos experientes, com uma enorme capacidade de encaixe, uma enorme maturidade musical e que abraçaram este desafio com um sorriso na cara”, afirma o curador.
Os verdadeiros obstáculos foram logísticos: artistas espalhados por vários pontos do país, agendas cheias, ensaios agendados ao minuto. Mesmo assim, todos se entregaram ao projeto com entusiasmo.

A carga histórica do Theatro Circo
A escolha do Theatro Circo não é um detalhe. Para o curador, é difícil encontrar um palco com tamanha carga simbólica e histórica. “Não existiria melhor palco para acolher este espetáculo, creio. É uma sala que viu os últimos 100 anos da história da música portuguesa — e não só, também de outras artes, claro. É uma sala que presenciou artistas que fizeram a nossa identidade musical, mas também a identidade global, dado o percurso internacional da sala. Figuras como a Amália Rodrigues ou a Cesária Évora pisaram este palco. É uma sala repleta de história, além de ser a sala mais bonita do país (dizem). E este peso histórico da sala entrega ainda uma maior dimensão e importância a este espetáculo”, sublinha Ilídio Marques.
Pôr ali músicos que personificam diferentes épocas da música portuguesa transforma “Seara” num diálogo entre passado e presente que só aquele palco pode amplificar.
VIVEMOS TEMPOS DIFÍCEIS E A FORÇA NATURAL DESTAS JUNÇÕES RENOVA A ATENÇÃO SOBRE O PAPEL DA MÚSICA E DA ARTE NA TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE.
Parceria com Évora 27
A parceria com Évora 27 – Capital Europeia da Cultura acrescenta ainda mais alcance ao projeto. “Évora, além de ser a Capital Europeia da Cultura em 2027, é também um rico território para a música de raiz e essa natureza acaba por ser parte integrante de um cancioneiro nacional. Para Braga 25 fez todo o sentido ter Évora 27 como parceiro neste espetáculo. É uma forma de estender uma ponte entre Braga e Évora, que estão tão longe territorialmente, mas muito próximas através da música tradicional portuguesa. Esperamos que o espetáculo possa também subir a um palco de Évora em 2027.”
Quanto ao que o público pode esperar ou como vai ser surpreendido, Ilídio Marques deixa um repto: “Vou lançar um desafio: venham ao Theatro Circo a 19 de dezembro e tenham essa resposta ao vivo, a partir da experiência de plateia e com o olhar para o palco. Para sermos surpreendidos, temos de estar presentes. Estejamos mais ou menos habituados, mas presentes. Já vivemos em demasia distantes uns dos outros, não é verdade? Fica o convite.”
“Seara” é, no fim de contas, um espetáculo que fala de continuidade: da tradição, da cooperação entre artistas, da ligação entre cidades, públicos e criadores. É um ato de celebração, mas também de futuro. Um gesto que honra o passado sem o congelar, que afirma o presente e que abre espaço para o que ainda está por vir.
Num ano em que Braga celebrou a cultura como eixo central da sua identidade, “Seara” surge como o fecho mais simbólico possível — grande, luminoso, coletivo e profundamente português.